Por Anna Vincenzo
Daniel Galvão é jornalista e ocupa o cargo de editor-assistente do Broadcast Político no jornal do Estadão. Formado em 1994 na Universidade Católica de Santos, o profissional nos conta um pouco mais sobre os bastidores da carreira.
1. Como é ser jornalista no contexto corrente no país?
R: Olha, eu acho que hoje, o maior desafio para qualquer jornalista, seja de que área for, é a disseminação de notícias falsas. É uma luta diária a gente publicar... fazer algum tipo de publicação, reportagem, notícia tendo a certeza de que a fonte dessa notícia é uma fonte confidenciada. A gente luta muito hoje contra essa descriminação de notícias falsas, que graças a internet que ficou muito mais fácil. Quando chega uma notícia na redação, antes de tomar qualquer providência, a primeira coisa que a gente faz é checar a veracidade da notícia. Por isso hoje muitos veículos, entre os grandes veículos, tem um serviço de checagem de notícia que circula na internet. Eles pegam a notícia que receberam de um leitor uma que circula pelo WhatsApp ou outra via e fazem essa checagem. Que a gente vê que realmente circula muita notícia falsa. E acho que o maior desafio do jornalista de hoje é isso.
2. Quais dificuldades que um jornalista enfrente no seu dia a dia?
R: Também ‘ta’ preparado pra qualquer tipo de notícia que você divulgar, reportagem que você assinar, você não vai ter unanimidade. Você será muito acalcado de todos os lados. Principalmente quando essa notícia é compartilhada em redes sociais. É muito fácil hoje ter caso de jornalistas que são acalcados diretamente. Muitas vezes tem complô envolvidos, mas, muitas vezes são acalcados por pessoas que não simpatizaram com a reportagem... é uma das dificuldades hoje.
3. Você pode me descrever como é a sua rotina no trabalho?
R: A minha rotina é o seguinte: eu trabalho a tarde porque trabalho no fechamento do serviço. Saio, quando ‘tá’ tudo tranquilo, 22h, quando o dia está complicado, acaba estendendo. Você tem que ler, antes de sair de casa, pelo menos dois jornais: jornal que você trabalha e o principal concorrente. Costumo fazer isso pela internet mesmo e depois quando eu chego na redação, normalmente antes de fazer tudo, dou uma olhada no que aconteceu no trajeto de casa pro trabalho. Eu também fico ligado nas notícias da TV. E daí eu me preparo pra uma reunião de pauta que a gente tem as 14:45 da tarde. Eu levo todas as atualizações da manhã e no início da tarde pra essa reunião, o que a gente publicou e se tem alguma matéria marcada pra tarde. Meu trabalho é um trabalho contínuo porque faço jornalismo em tempo real, então ele é mais corrido que o jornalismo online, porque e no momento em que ta acontecendo.
4. Quais são as condições profissionais e os benefícios trabalhistas?
R: São razoáveis. São bons. Posso dizer que tenho a sorte de trabalhar numa das maiores agências de notícias brasileiras que é a agência Estado, a mais tradicional, mais respeitada. E a gente sabe que veículos grandes têm mais chances de dar benefícios maiores do que as que tem mais dificuldade. Você tem plano de saúde, tem o restaurante da empresa, a gente pode almoçar e jantar lá num valor privilegiado pela empresa, o que facilita. A gente tem várias coisas que uma empresa costuma fazer para proporcionar uma bem-estar pra gente lá.
5. Na sua opinião, o que faz um bom jornalista?
R: um bom jornalista faz através da paixão pelo jornalismo. Se você é apaixonado pelo jornalismo, você será um bom jornalista sem dúvida nenhuma.
6. E por que a área da política?
R: A política que me escolheu, não eu que a escolhi. Trabalhei em várias áreas: assessor de imprensa, cobri educação, cobri basicamente o que todos os jornalistas já cobriram: buracos de rua, mas, acabei indo, naturalmente, pra política.
7. Você acha que o jornalista deve ser imparcial ou tem o direito de expressar a sua opinião nem que seja nas redes sociais?
R: Não existe jornalismo 100% imparcial, existe, obviamente, a imparcialidade em que é um dos diários do jornalismo, você tem que sempre buscar a imparcialidade. Mas quando, por exemplo, o jornalista dá voz a uma pessoa que não tem voz, uma pessoa que, por exemplo está sendo injustiçada de alguma forma, vítima de violência policial, apanhando de uma forma covarde ou uma pessoa que foi vítima de racismo e existe uma comprovação disso em áudios, vídeos, de uma certa forma, ele está de um lado, mas ele não está do lado de quem o ofendeu, está do lado de quem foi ofendido. Mas no meu trabalho, não há escolhas, tenho que ter uma imparcialidade total no dia a dia.
8. Como a pressão colocada no seu dia a dia, te causa muito estresse pessoal?
R: O jornalismo em tempo real por si só tem uma pressão natural, então essa pressão de você estar sempre antenado pra o que está acontecendo naquele momento e você tendo que dar com precisão uma fala de uma personalidade política daquele exato momento que está acontecendo. Mas é uma pressão que você sai no final do dia com a sensação de dever cumprido.
9. O que você acha da não obrigatoriedade do diploma jornalístico?
R: Eu acho que é ruim com diploma e pior sem ele. A gente tem muita deficiência no ensino do jornalismo, então é muito complicado uma pessoa ir pro jornalismo sem ter pelo menos uma noção de ética jornalística porque a parte técnica ela pode pegar facilmente.
10. Quais as dificuldades que você enfrentou pra ingressar na profissão quando você se formou?
R: Quando eu me formei, tinha muito menos áreas para o jornalista trabalhar do que hoje em dia, por isso muitos jornalistas que também se formaram em Santos naquela época se mudavam para outros lugares. Quem se formou hoje tem muito mais opções de quem se formou lá atrás, graças à internet.
11. E pra finalizar, qual conselho você daria para jovens que estão ingressando na faculdade de jornalismo agora ou então se formaram recentemente e estão iniciando a carreira?
R: A preocupação muito grande que tenho é que t em jornalista que não lê e acho que a primeira coisa é sempre estar lendo. Sempre. Estar lendo todo tipo de mídia, jornal, revista, na internet e sempre estar atualizando a área que pretende seguir no jornalismo e todo tipo de livro e tópicos importantes que têm a ver com o jornalismo. E hoje, acima de tudo, é coragem pra entrar na profissão, que vale a pena.
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