Por Anna Vincenzo
1. Como é ser jornalista no contexto corrente no país?
R: Normal. Sei de colegas que sofrem perseguições... mas no meu caso eu trabalho com entretenimento.
2. Quais as dificuldades que um jornalista enfrenta no seu dia a dia?
R: Diminuição de equipe para conter gastos, daí trabalhos por dois e, mesmo com essa situação de mais trabalho e pouca gente para dar conta, as cobranças são cada vez maiores.
3. Você pode me descrever sua rotina no trabalho?
R: É a seguinte: chego na TV entre 10h e 10h30. Entro na internet e vejo os principais sites para ficar informada e buscar notas e material que possa render um VT com assuntos quentes. Leio jornais também. Depois começo a checar o material que os repórteres fizeram no dia anterior, cobrar deles relatórios e mais tarde textos fechados. Até as 12 horas, com o material que rendeu no dia anterior, tenho de fazer 3 chamadas promocionais que serão exibidas durante a programação da emissora. Daí monto o espelho do programa com tudo que acho importante ter naquele dia (de acordo com estratégia de horário, concorrência...). Com o espelho montado converso por telefone com o diretor do programa as 12h30 e falo tudo que tenho e como montei o espelho. Então ele escolhe a ordem das matérias e o que quer e não quer para o dia. Depois até as 13h30 tenho de editar os 5 primeiros textos principais para compor o programa, que vai ao ar diariamente a partir das 21h30. Depois converso com os produtores e começo a cobrar pautas como eventos, shows, entrevistas especiais para montar a pauta. Neste meio tempo vou almoçar. Na volta meu diretor chega e começo a editar mais 4 textos. Ajudo a equipe a encontrar eventos para fazer a pauta. Até as 18 horas já editei o todos os textos: total 12. Deixo só umas notinhas quentes mais importantes para o final, com o programa do dia pronto. Minha equipe também já foi atrás de shows e eventos e começamos a montar a pauta do dia seguinte. Até as 19 horas distribuo para todos os repórteres que nesta hora já estão trabalhando na rua nos principais eventos de São Paulo.
4. Quais são as condições profissionais e os benefícios trabalhistas?
R: Jornalistas não tem grandes benefícios. Hoje sou contratada (o que é um luxo em um mercado que trabalha muito com free lances). Tenho PL, almoço na emissora e todos os direitos de quem trabalha com carteira assinada.
5. Como você sente que o brasileiro enxerga sua profissão? Se sente valorizada?
R: As pessoas veem os jornalistas como uma profissão glamorosa até por conta de diversos filmes que existem sobre a profissão. Mas é um trabalho braçal.
6. Pra você, o que faz um bom jornalista?
R: Amar a profissão, se dedicar de verdade, jamais ser acomodado e ter o espírito inquieto, ser curioso.
7. Por que escolheu jornalismo? E por que a área de entretenimento?
R: Escolhi aos 13 anos. Eu amava ler, principalmente revistas. Então fui para a área de entretenimento e trabalhei nas principais: Amiga, Contigo, Capricho, Caras e Holla (revista espanhola que veio para o Brasil e ficou por um tempo).
8. Você mudaria sua área de atuação?
R: Não. Sou feliz fazendo o que faço. Hoje sou chefe de pauta do principal programa de entretenimento da Rede TV, o TV Fama que está há 18 anos no ar cobrindo os principais eventos e assuntos das celebridades apresentado por Nelson Rubens e Flávia Noronha.
9. Por você trabalhar com entretenimento, você sofre algum tipo de preconceito por colegas de trabalho com o estigma de ‘’fofoca’’?
R: Sim, profissionais de outras áreas que trabalham com política, economia, saúde, há muitos que acham o nosso trabalho fútil, mas fazemos um trabalho sério com apuração e informações corretas. Sem contar que todo mundo gosta de uma “fofoca” de famoso. Nos principais sites quando se coloca uma notícia de celebridade sempre estão entre as mais lidas... por que será, né?
10. Em um país onde o jornalista é diariamente atacado e até ameaçado por conta de ideologias contrárias, você já passou por alguma experiência do tipo?
R: Na minha área não, mas conheço e já ouvi muitos relatos de colegas que são sim ameaçados.
11. Abordando a questão do preconceito, você já sofreu dentro da profissão pelo fato de ser mulher e/ou negra?
R: Sim, em vários momentos, por ser negra. Mas nunca me deixei abater e sigo em frente.
12. Você acha que um jornalista deve ser imparcial? Ou deve ter direito a expressar sua opinião?
R: Imparcial, senão como você vai escrever sobre determinado assunto ou, no meu caso, abordar uma polêmica de algum famoso se vc tiver algum preconceito dentro de você? A imparcialidade é a base pra se construir um texto correto.
13. Como é a questão da pressão? Causa muito estresse? Te afeta muito na vida pessoal?
R: A pressão é diária, existe em TODAS as profissões. Claro que me afeta por causa da correria de fazer um programa diário, muitas vezes demoro pra dormir, mas ok, já aprendi a lidar.
14. O que você acha da não obrigatoriedade do diploma na atuação da carreira?
R: Um absurdo. Só serve para diminuir salário e desvalorizar a profissão e o profissional.
15. Quais dificuldades você enfrentou para ingressar na profissão quando se formaram?
R: Não tive muita pra falar a verdade, pois no último mês de faculdade um professor indicou vários alunos, inclusive eu, para trabalhar em um jornal no vale do Paraíba então terminei as aulas em dezembro e janeiro já estava trabalhando.
16. Qual conselho você daria para os jovens que estão ingressando na faculdade de jornalismo ou recém-formados que estão iniciando a carreira?
R: O principal conselho é se dedicar, não ser preguiçoso, não querer passar por cima de ninguém para crescer profissionalmente, fazer um excelente trabalho até mesmo quando seu chefe pedir pra você escrever apenas uma notinha simples.
17. Pra finalizar, o que ninguém conta sobre ser jornalista?
R: Você trabalha muito, muito e na maioria das vezes ganha pouco, mas no fim do dia se sente realizado por ter feito algo para deixar o mundo um pouco melhor. Inclusive no meu caso, que é levar entretenimento para as pessoas que trabalharam o dia inteiro e no fim do dia só querem relaxar.
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